Poemas de Bruno Michel Ferraz Margoni - Michel F.M.
Última chamada para uma partida sem retorno
das medidas perfeitas
se despediu,
da simetria e da proporção.
se despediu dos valores,
tão caros e valiosos,
nada representavam
senão uma ideia, puramente
idealizada, não eram
mais uma preocupação.
das frases feitas
se despediu,
prosa poética e narração.
se despediu das estrofes,
tão cansativas, monótonas,
nada inspiravam.
era só a explosão de vida
que lhe interessava agora,
desorganizada e imperfeita,
comprometida consigo mesma
em primeiro lugar
e em seguida com todo o resto,
daquilo que se espalha
e aglutina, potência ainda
inominada, primitiva e irrestrita.
despadronizada e satisfeita
como a própria explosão de vida,
era só o que lhe interessava,
a partir de agora.
29/06/24
Adeus ao Homem Vitruviano
do verde que atrai as gotas
de nuvens que reflorestam,
das folhas que fazem planta,
a gota que aqui está.
na confecção
de combinações
impensáveis,
nossas vidas
são um emaranhado
daquilo que acreditamos,
ou o resultado
das colisões improváveis
nas quais decidimos
acreditar.
de toda esta diversidade
que de nós emana,
destaca-se nossa incalculável
perversidade humana,
quando o conhecimento
vem munido de toda técnica
e nenhuma consciência.
nos resta a gota que cai na folha
das folhas que fazem planta,
do verde que atrai as gotas,
de nuvens que reflorestam.
quando o fim de tarde é lilás,
quando já for tarde demais,
entre a pedra que foi lascada
e o foguete final lançado,
quando o mundo tiver acabado,
dedico-te o surto, que aqui está.
30/06/24
3024 d.C.
ao despertar da cápsula
de hibernação,
encarei uma face
desconhecida.
no reflexo do vidro,
as feições distorcidas
desenrolaram
um pensamento claro:
numa análise cirúrgica
de nossa encruzilhada social,
estamos em mais um
momento histórico,
que determinará
as próximas décadas
e nossas relações humanas
nesse ínterim.
a atmosfera
de estupidez e alienação,
paira mais uma vez sobre nós.
a marcha da história
é implacável e só
a consciência crítica
pode nos amparar,
em meio a brutalidade
das classes dominantes.
que possamos compartilhar
imprescindíveis reflexões,
para um modo de agir
humanizado,
que nos resgate
da apatia cotidiana.
que possamos resistir
uma vez mais,
como tantos outros
resistiram antes de nós
e outros tantos
haverão de resistir.
03/07/24
Poema em Carbono
se atente
à distância
que a luz percorre.
quando acordar desesperado
por não ter controle
sobre nada,
quando perder o sono
pela falta de sentido
que encharca a vida.
lembre-se que a Terra
não precisa de nós
para girar,
que o sistema solar
não precisa da Terra
para aquecer,
que a Via Láctea
não precisa do Sol
pra iluminar,
que o Universo não
precisa desta Galáxia
para expandir.
e você não precisa
de todas essas coisas
inúteis para viver,
ser notado e se exibir.
neste vasto profundo,
cada raio de luz
encontra sua escuridão.
nunca imaginamos que
viveríamos tanto,
mas chegamos até aqui.
e com a legião de demônios
que habita nossa consciência,
desconfio que chegamos
longe demais.
21/07/24
Pregnância
o formato é tão
contornável,
enquanto a forma
esbanja volume.
veemência é um
sinônimo para
intensidade,
mas tensão cria
expectativas,
que podem ou não
se concretizar.
amarrotados
nesta retalhada rotina,
o que nos sustenta
é nossa percepção
distorcida.
o que seria de nós
sem uma teoria inventada,
seríamos tudo ou nada,
bem como já somos,
poetas ásperos
em versos macios.
nossa razão
de existir,
ainda persiste em ser,
enquanto buscamos
impregnar de sentido,
os cotidianos vazios.
31/08/24
Sirva-se quem puder
a fome não espera
pelo que é certo,
ela não espera
pelo que é justo.
teu estômago não
compreende méritos,
oportunidades ou sucesso.
teu suco gastrointestinal
não diferencia metas,
de lixo em decomposição.
a ausência não sacia
ninguém.
a falta não alimenta,
senão a revolta.
nutridos
pelo desconforto,
reconhecidos
pelo desalento,
andarilhos
desamparados,
famintos
desgraçados,
acolhidos apenas
pela desordem,
uni-vos.
toda reação é justificável
e necessita ser violenta,
contra esta engrenagem
lubrificada pelo
teu sangue.
a fome não espera
pelo que é justo,
ela não espera
pelo que é certo.
31/08/24

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